quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Águas passadas
Passam pela minha cabeça enquanto eu vejo a sua foto
Tudo são águas passadas
E tua cara molhada sorri pra mim
O brilo dos olhos está convencido de que convenceu
Tantas outras coisas passam pela minha cabeça e águas passadas
Rios de largura imensa
Largura dos meus cílios
Jorrando e derrubando a mesa
Frutas rolando, maçãs vermelhas e brilhantes,
Maçãs que ninguém saiba,
De pura cera

Recomponho a cena e agora estou num parque
Com duas pessoas que correm ao redor do lago artificial
(eu nunca participei da caminhada da lua)
minha consciência ecológica está vencida

veias saltam deficientes de alimento espiritual
cozinha de petiscos calientes
pepino dourado no balcão
visão apimentada para o almoço
alfafa com almácegas e farei disto um tique verbal
repetirei mil vezes enquanto bato com o dedão do pé na maçaneta da porta e pisco de três em três batidas

estou virando gigante
gigante vencida pelo cansaço
de ter que esquecer tantas coisas, tantas pessoas
o que é este passado e
até quando meu sapato estará na moda
chegarei a gastar a sua sola?
Eu queria gritar enquanto sussuro
Pula aqui no meu colo que eu quero te mastigar bem devagarzinho
Põe a língua no meu pescoço que é o bastante
Não precisa mais dizer ou fazer nada
Lambe a minha nuca
Morde a minha orelha e tudo vem à tona e é indizível

Revistei todas as coisas, compartimentos revistei
Livros caindo das estantes espalhadas por todos os cômodos
Nosso amor e letras
Palavras sem som palavras de imagens palavras lidas
Pensadas
E a fala
A sua voz
Onde anda o som da sua voz
O movimento dos seus lábios
Lindos
Alvorecer de quatro
Manteiguinha derretida
Beiços
Achatados
Pinguela
namorado
Critico meu vício critico meu vício
E venho mais pra cima dentro do círculo de fogo
Encabeçado por serpentes de aço e magia
Leio nos seus lábios um discurso casual
“Eu te amo”
Aparentemente óbvio, mas pra mim não
Espero um rio de lágrimas de vento e prosa
Mas preciso de você
Enquanto respiro
Escova de dentes colgate cinza e branca, mão e pé também, deslizando ao vento de óculos clubber. Quem diria que seu chapéu estaria ao alcance da minha mão...

Mão e pé marrom, rua também, chuva a 60 km, cadê sua capa de chuva?

Imagine a publicidade: Motociclista em alta velocidade, gotas explodindo na face branca e rosa, mão, pé e roupa marrons. Capa de chuva boa tem nome: resfenol.
Em uníssono calado
Todas as vozes que
Tem aqui dentro
Estão pleiteando
Uma reforma
Que eu mude
Que eu me cerque de cuidados
Para estar bem e em paz
Para estar forte
Para ser segura
Preciso ser segura
Preciso estar viva
Alegre, solta
Livre de todo o medo das pessoas
Só delas?
Vamos mudar
Aceitar
Acertar?
Eu quero
Eu concordo
Então vamos
Apontamentos
Pretendo fazer mil
Apontamentos
Pra bem longe ( o bastante pra mente chicletear – mascando imagens embebidas pela saliva)
Memória transposta para outro cenário
O que fui, o que sou,
Nada
Só vejo
A minha mente está convencida de que sei o que está acontecendo
Mas eu instinto me sinto caracol, sem nexo, meio ou fim
(mas o caracol se move)
devagarinho meu pensamento vai trilhando o desenho com aquela gosma característica da obsessão
sou vítima da minha necessidade de desejo
do padrão de movimento básico da minha mente
e bebo um vinho por que quero mais vermelho circulando
quero me sentir quente
e lembrar, entre outras coisas,
da Itália
A minha mente é um liquidificador triturando mil emoções por minuto
Você me beija e tudo gira
Milhões de palavras em turbilhão
E ainda
Imagens e sons
Mais precisamente estalos e mais
Aqueles que só se têm na memória presente do beijo
Pode me atender (o efeito sonoro do toque sutil da pele fina com sentimento que é menos do que instinto e paixão),
é surpresa
Do momento combinado (?)
Incógnita
emoção
Não sei mais que coisa é essa de criar com palavras
Mas queria recriar você
Sentindo o cheiro da grama molhada que não senti com você
Beijando na chuva com estalo de trovão
Te ver naquele segundo em que o raio torna a noite em dia
Vinte mil palavras não sabem o que é isso e eu ainda tento
Borboleta vazia e amarela piscando nos seus lábios
Eu chego até você pelo rastro de brilho que deixaste na água
Fria
Sentado agora na pedra preta molhada que nem você
Pé preto dentro dágua
Gostaria que a mente não desse tantas voltas
Por que passo tantas horas sem pensar e quando paro
São verdadeiros minutos densos
Quase diários dedicados à manter-te na memória
Este carinho despedaçado
Que participa tão inteiro deste sonho
Que a ilusão mascara
Mas são momentos perdidos
Fundidos na noite
Esta noite fria em que encontro a solidão
Bem disposta e eloquente